União Mundial das Mutualidades e COVID-19

Alfredo Sigliano, Presidente do Comité Intercontinental da União Mundial das Mutualidades

A União Mundial das Mutualidades nasceu como resposta à ausência de uma Organização que reúna e represente o mutualismo dos cinco continentes, com toda a amplitude e variedade de serviços que presta à comunidade.

A visão que inspirou sua criação enfrenta hoje a ameaça da COVID-19, uma pandemia virulenta que não distingue nacionalidade, etnia ou crença e tem afetado e afetará seriamente os seres humanos em todos os países do mundo.

Nunca como agora, o mutualismo global foi convocado a unir a sua experiência e as suas bases doutrinárias, num desafio único que lhe permitirá demonstrar, de forma clara, o seu enorme e benéfico impacto nas comunidades em que opera, não havendo lugar geográfico onde, de uma forma ou de outra, os princípios da solidariedade da sua filosofia não se manifestem naturalmente entre os seus habitantes.

Esta incipiente união intercontinental, logo após a sua génese, enfrenta uma luta sem precedentes e, portanto, tem a oportunidade histórica de demonstrar a sua capacidade de gestão e o valor indiscutível das suas estruturas de atendimento, procurando articular com os governos uma ação que proporciona um trabalho de inclusão social e solidariedade.

Não sairá do âmbito dos fins da UMM, tornar visível ao sistema, o destaque que a manifestação ecuménica da sua inegável vocação para promover com o seu esforço, o bem-estar e a proteção dos mais vulneráveis, ajudando a mitigar os efeitos da pandemia, principalmente nas famílias que mais sofrem com esse infortúnio.

A dimensão do flagelo e as inevitáveis restrições ao normal funcionamento de todas as atividades, fizeram com que a agenda de trabalhos prevista fosse irremediavelmente violada. Assim, algumas ações de extrema importância foram adiadas, como a realização da segunda assembleia geral ordinária prevista para abril de 2020 em Buenos Aires, que pretendia concluir a transferência da Sede da Organização para o edifício da ONU em Bruxelas (Bélgica), entre outras de natureza administrativa de menor relevância. Com certeza, todas essas medidas serão implementadas com prioridade absoluta logo que a emergência que nos afeta seja revertida.

No entanto, com total certeza podemos prever que haverá um pós-pandemia e, então, o desafio será adaptar-nos às profundas mudanças sociais e económicas que por ela nos serão deixadas. Transformações substanciais ocorrerão nos comportamentos pessoais e na interpretação da resposta que deve ser dada às tragédias que afetam toda a humanidade.

Certamente, o sentido de solidariedade que o sistema mutualista vem promovendo ancestralmente será fortalecido e o mundo perceberá o valor da economia social. Embora seja verdade que é difícil prever a duração desta crise sanitária e as suas deploráveis consequências, mesmo para os mais eminentes cientistas, sabemos que não podemos baixar os braços e por isso, a UMM renova o seu compromisso em multiplicar esforços para tornar a passagem da pandemia mais curta e menos dolorosa.

Nestes tempos difíceis, o Comité Intercontinental expressa a sua solidariedade a todas as suas entidades na América, África e Oriente Médio e Europa, que hoje trabalham arduamente para proteger os mais vulneráveis e tomar medidas para mitigar os efeitos da pandemia. Principalmente com todas as famílias que sofrem a perda de seus entes queridos.

Nota Editorial
Este foi o último artigo redigido expressamente para o Movimento Mutualista Português por Alfredo Sigliano, Presidente da União Mundial das Mutualidades e uma das figuras mais marcantes da economia social e solidária na América do Sul e no mundo, falecido antes da publicação desta edição da revista MUT.

Mutualista de referência e dirigente de reconhecida capacidade empreendedora, Alfredo Sigliano contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do movimento mutualista internacional, através da ODEMA, de outras organizações sul-americanas e da própria União Mundial das Mutualidades, da qual foi fundador e presidente.

A sua ação pautou-se pela defesa dos princípios e valores do mutualismo e pela convicção de que a cooperação constitui um instrumento essencial para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

Com o seu desaparecimento, o movimento mutualista internacional perdeu uma das suas mais importantes referências.

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