Uma sociedade mais humanista

Fernando Paulino, Presidente da ASM Setubalense

“O movimento mutualista, através das suas associações, é um parceiro privilegiado de participação social, que não pode ser excluído da tarefa de humanização das comunidades.”

Compete ao Estado garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, como o seu bem-estar social e as liberdades individuais e coletivas, promovendo políticas e ações direcionadas para a erradicação das assimetrias territoriais, económicas e sociais.

Esta responsabilidade do Estado terá maior sucesso quando desenvolvida através de parcerias com as instituições do Setor Social e Solidário.

O conhecimento, a capacidade de resiliência e a proximidade às comunidades são fatores fundamentais para enfrentar e resolver os problemas cada vez mais complexos e desafiantes da atualidade. Vivemos numa sociedade que atravessa novos tempos, sem tempo: sem tempo para olhar e ver, para pensar e refletir, sem tempo para sentir.

Vivem-se tempos de pobreza material e moral. Vivem-se tempos de solidão. Uma solidão que pode ser sentida nos locais mais recônditos ou nos grandes centros urbanos. As grandes cidades vivem, aliás, um paradoxo: vivemos juntos, mas isolados. As cidades têm muita população, mas faltam as pessoas. Falta a alma da gente.

Todo este contexto de isolamento social e solidão pode ainda ser agravado por fenómenos de racismo e xenofobia, fenómenos crescentes e promotores de exclusão, de violência e de diversas vulnerabilidades, que devem ser combatidos de forma efetiva.

A aceleração do mundo digital, sendo um fator de modernização, de desenvolvimento e facilitador da comunicação, é também um elemento limitador da interação e da vida em comunidade.

Todos estes impactos da nova realidade social tornaram a sociedade e, em particular, as cidades, num espaço mais egoísta, sem o necessário sentimento de proximidade e de humanidade.

A cidade precisa de estratégias comunitárias. Precisa de políticas viradas para as pessoas. Precisa de organização e de planeamento urbano e social que promovam a interação e o reforço da vida comunitária e também familiar.

Essa é uma responsabilidade de todos: do poder político, das instituições da sociedade civil, quer através de ações isoladas de voluntariado, quer através de trabalho comunitário organizado.

Este esforço deve ser de todos. O movimento mutualista, através das suas associações e da sua capacidade de criar laços comunitários de proximidade e de confiança, é um parceiro privilegiado de participação social que não pode ser excluído da tarefa de humanização das cidades e das comunidades onde está inserido.

“Uma sociedade que esquece o passado, vive um presente que não terá futuro.”

O conhecimento adquirido através de séculos de trabalho em prol dos mais desfavorecidos, complementando e, por vezes, substituindo o sistema público em áreas fundamentais como a saúde e a proteção social, torna o movimento mutualista um elo importante no sistema de solidariedade.

Neste tempo novo, em que tantas vezes se vive sem tolerância ou compaixão perante o drama da solidão dos nossos idosos, o papel das nossas organizações é fundamental no trabalho em rede e no apoio à terceira idade, através de respostas como Lar, Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário.

Toda essa política de apoio social contribui para mitigar o sofrimento da solidão de muitos idosos, que algumas famílias esquecem e que a sociedade, demasiadas vezes, tolera. E uma sociedade que esquece o passado vive um presente que dificilmente terá futuro.

Toda esta realidade deve convocar-nos a todos, todos, todos, a assumir a nossa responsabilidade social, ajudando a construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humanizada.

Somos todos chamados a uma profunda reflexão e a uma firme determinação na defesa dos valores da igualdade, da fraternidade e da dignidade humana.

“O meu é teu!”

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