O futuro da economia e do trabalho e os novos modelos de proteção social: que lugar para o mutualismo?

António Costa e Silva, Ex-Ministro da Economia

“O trabalho das Mutualidades
é mais necessário do que nunca.”

O mundo está em convulsão com as mudanças sísmicas que estão a ocorrer na geopolítica e na geoeconomia mundiais. Estamos confrontados com a transição de uma era caracterizada pela intensificação da globalização, pela integração crescente das economias mundiais, pelo crescimento sem paralelo do comércio mundial e pelo funcionamento quase perfeito das cadeias logísticas e de abastecimento, com o célebre modelo “just in time”, para uma era caracterizada pela crescente fragmentação geopolítica e geoeconómica, pelas disputas geoestratégicas ferozes entre as grandes potências, pelo crescimento do nacionalismo agressivo, pelas guerras tarifárias e pela ascensão do protecionismo, pelo declínio do comércio e da cooperação internacional e pelo colapso periódico das cadeias logísticas e de abastecimento.

O resultado são as crescentes dificuldades para a economia e para o bem-estar dos cidadãos, a volatilidade dos mercados impulsionada pelas incertezas geopolíticas globais, a reconfiguração das cadeias de produção e de abastecimento e a crescente dificuldade das empresas no acesso aos mercados e à inovação.

Estas mudanças sísmicas são amplificadas pela crescente divergência entre as lógicas política e económica, sendo que a política e a segurança assumem hoje um papel cada vez mais determinante. Neste quadro, as grandes potências mundiais estão a usar aquilo que são bens públicos globais, como o comércio, a tecnologia e as cadeias logísticas, como armas de guerra na sua competição estratégica.

Isto é mau para a economia e para o bem-estar global, cria mais dificuldades para a vida dos cidadãos, leva ao aumento das desigualdades e tudo isto acontece no meio da escalada da emergência climática e da degradação das condições de vida no planeta.

Numa altura em que a ameaça climática se agrava com o aumento do aquecimento global, com a perda de milhões de quilómetros quadrados de gelo nos polos, com o aquecimento do solo gelado que cobre 25% do hemisfério norte, com a expansão térmica dos oceanos e a crescente erosão marinha das faixas litorais, com a degradação dos ecossistemas marinhos e terrestres e com a contínua subida das emissões de dióxido de carbono, é mais necessário do que nunca o reforço da cooperação global para fazer face a esta brutal ameaça que pende sobre a vida humana.

“O movimento mutualista é essencial para revitalizar e mobilizar a sociedade em torno dos valores fundamentais da dignidade, respeito e desenvolvimento integral do ser humano.”

A nossa espécie não aprende nada com os seus erros e caminha de forma irresponsável para uma catástrofe que ainda pode e deve ser evitada.

Neste quadro, o trabalho das Mutualidades é mais necessário do que nunca. Precisamos de um trabalho ainda mais intenso do Mutualismo para reafirmar os seus valores de solidariedade e de previdência, para promover os valores da reciprocidade, para proteger os mais fracos e vulneráveis, para reforçar a proteção social, para continuar a promover a qualidade de vida, para continuar o trabalho de reforço da sustentabilidade e mitigar o impacto negativo das alterações climáticas.

É preciso encontrar novas respostas para a inovação social, assegurar modalidades complementares da segurança social, inovar no apoio ao estudo e à formação, inovar com a introdução das tecnologias digitais nos cuidados de saúde, incluindo os cuidados continuados e o acompanhamento dos idosos, inovar na ação social, com a ampliação e digitalização da rede de serviços e novas respostas sociais para a infância, os jovens e a terceira idade.

É preciso avaliar o impacto do desenvolvimento das tecnologias de informação e das mudanças tecnológicas em curso, e disseminar a adoção das tecnologias digitais e da inteligência artificial no tecido mutualista, potenciando os seus benefícios, incluindo a transformação das relações de trabalho e o surgimento de modelos híbridos de trabalho, que podem ser mais apelativos e eficazes, mas que também comportam riscos que devem ser avaliados para que a sua integração fortaleça as organizações e reforce a sua eficácia.

O movimento mutualista é essencial para revitalizar e mobilizar a sociedade em torno dos valores fundamentais da dignidade, do respeito e do desenvolvimento integral do ser humano, devendo ser também um protagonista essencial em áreas como a cultura e o lazer.

Deve acolher e consolidar as novas soluções que estão a emergir para responder às falhas da economia e da sociedade e que podem moldar o futuro, como a crescente consciência ambiental, o desenvolvimento, em particular nas camadas mais jovens, de uma cultura de economia partilhada, as novas formas de propriedade, de contratos e de empréstimos, as plataformas de crowdfunding baseadas numa maior solidariedade e cooperação, as plataformas de trabalho colaborativo e associativo e de criação e produção colaborativas ao nível dos serviços, bens e organizações.

O movimento mutualista também pode beneficiar do facto de, pela primeira vez na história da humanidade, em função da maior longevidade e dos avanços espetaculares das ciências da saúde, existirem em simultâneo cinco gerações que vivem, trabalham e consomem ao mesmo tempo: a geração Z (nascida entre 2001 e 2020), os millennials (nascidos entre 1981 e 2000), a geração X (nascida entre 1965 e 1980), os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e a geração silenciosa (nascida entre 1925 e 1945).

Esta diversidade única cria dinâmicas diferentes, mas pode ser uma fonte de vitalidade e renovação se o movimento mutualista identificar novas maneiras de interagir com as diferentes gerações, descobrir as suas diferentes motivações e prioridades. As gerações mais jovens têm grande atração pela sustentabilidade social e ambiental, pela inclusão, igualdade e fluidez de género, enquanto as gerações mais velhas estão preocupadas com a saúde e a qualidade de vida, sendo fulcral integrar novas respostas, como equipamentos auxiliares de mobilidade, produtos de cuidados de saúde e soluções personalizadas de bem-estar.

O movimento mutualista pode reforçar a sua dinâmica e implantação operando com todos estes setores, potenciando o seu envolvimento e colaboração, alargando o seu leque de intervenção e construindo um mix articulado de novas soluções inovadoras.

Como disse Heráclito, a mudança é a única constante da vida, e o movimento mutualista pode e deve estar no centro da mudança para responder aos problemas do nosso tempo.

“A nossa espécie não aprende nada com os seus erros
e caminha de forma irresponsável para uma catástrofe
que ainda pode e deve ser evitada.”

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