A importância do Mutualismo e do setor social no sistema de saúde português

Adalberto Campos, Ex-Ministro da Saúde, Professor ENSP Nova

“As mutualidades desempenham um papel relevante no sistema de saúde, especialmente em áreas onde o SNS enfrenta dificuldades.”

O mutualismo e o setor social constituem alicerces primordiais no contexto do Sistema de Saúde português e das políticas públicas de saúde. Desde o advento das primeiras associações mutualistas no século XIX, estas organizações têm-se afirmado como vetores imprescindíveis na promoção de um acesso equitativo aos cuidados de saúde, em clara sinergia com as atribuições do Estado, consolidando, simultaneamente, os alicerces da coesão social.

O mutualismo em Portugal tem as suas raízes nas próprias necessidades da população em contextos de insuficiência do Estado. Durante o século XIX, a industrialização crescente e as condições laborais precárias incentivaram o surgimento de associações mutualistas fundamentadas na solidariedade e na ajuda mútua.

Estas organizações ofereciam cuidados de saúde, subsídios em caso de doença ou invalidez e apoio e suporte às famílias dos trabalhadores.

Atualmente, as mutualidades desempenham um papel relevante no sistema de saúde, especialmente em áreas onde o SNS enfrenta dificuldades em assegurar a cobertura total. As Mutualidades Portuguesas, tal como a União das Mutualidades Portuguesas, são exemplos de organizações que promovem a integração entre os setores público, privado e social, contribuindo para a eficiência e sustentabilidade do sistema de saúde.

O setor social, composto por organizações como as IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), Misericórdias e Associações Mutualistas, é um aliado fundamental do SNS.

Estas entidades não se limitam a prestar cuidados de saúde e apoio social, desempenhando igualmente um papel essencial na promoção da saúde, na prevenção da doença e na educação para a saúde.

Dados recentes revelam que as IPSS administram um número substancial de unidades de cuidados continuados, lares e centros de dia, essenciais para atender às exigências de uma população cada vez mais envelhecida.

Este desafio é particularmente relevante em Portugal, onde mais de 22% da população tem mais de 65 anos, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).

“O mutualismo e o setor social são pilares fundamentais do sistema de saúde português, complementando o SNS e contribuindo para a sua sustentabilidade.”

As políticas públicas de saúde em Portugal valorizam o setor social e mutualista incentivando as parcerias que reforcem a capacidade do SNS. O Programa Nacional para a Promoção da Saúde e o Plano Nacional de Saúde são exemplos de iniciativas que envolvem o setor social na execução de medidas de prevenção da doença e de promoção da saúde.

A criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) ilustra exemplarmente a cooperação entre o setor público e o setor social. Estabelecida em 2006, a RNCCI visa garantir cuidados de saúde e apoio social a indivíduos em situação de dependência, contando com a participação de organizações sociais, como as Misericórdias e as IPSS, na gestão e prestação dos serviços.

No entanto, para que estas parcerias alcancem plena eficácia é necessário superar desafios relacionados com o financiamento, a formação de recursos humanos e a coordenação entre as diferentes entidades. A alocação de recursos de forma equitativa e eficiente é essencial para evitar sobrecargas no setor social e garantir a sua sustentabilidade e a sua viabilidade a longo prazo.

Num contexto de crescentes desafios financeiros e operacionais para o SNS, o mutualismo e o setor social surgem como aliados imprescindíveis para garantir a sustentabilidade do sistema. O mutualismo, com a sua tradição de solidariedade, e o setor social, com a sua proximidade às comunidades, estão bem posicionados para contribuir para esse objetivo.

A introdução de modelos de cuidados centrados no utente, a utilização de tecnologia para melhorar o acesso aos serviços e o reforço das redes de apoio comunitário são exemplos de áreas onde o setor social pode liderar.

Para além disso, o setor social pode atuar como um catalisador de inovação em saúde, promovendo soluções adaptadas às necessidades locais e explorando abordagens complementares às do setor público.

O mutualismo e o setor social são pilares fundamentais do sistema de saúde português, complementando o SNS e contribuindo para a sua sustentabilidade.

Num momento em que o SNS enfrenta desafios significativos, desde o envelhecimento populacional até à crescente pressão financeira, é essencial reconhecer e reforçar o papel destas entidades.

Através de políticas públicas que promovam uma colaboração estreita entre o setor público e o setor social, será possível construir um sistema de saúde mais equitativo, eficiente e adaptado às necessidades da população.

Artigos Recentes

Webinar UMP sobre criação de modalidades de benefícios

A UMP promove, a 24 de julho, um webinar jurídico sobre criação de modalidades de benefícios nas associações mutualistas. Inscrições gratuitas.

CIDACL celebra o Dia Mundial do Chocolate com atividade educativa

O CIDACL, da União das Mutualidades Portuguesas (UMP), celebrou o Dia Mundial do Chocolate com uma atividade educativa que promoveu a aprendizagem e a exploração sensorial.

IEFP promove sessão técnica sobre Reconhecimento Profissional

O IEFP promove uma sessão técnica online sobre Reconhecimento Profissional entre 20 e 22 de julho. Conheça o programa e saiba como participar.

UMP reúne com nova Administração da MUDIP

O Presidente da União das Mutualidades Portuguesas, Luís Alberto Silva, reuniu-se com o novo Conselho de Administração da MUDIP – Associação Mutualista Diplomática Portuguesa, numa visita realizada à nova sede da instituição, situada na Avenida Infante Santo, em Lisboa.

UMP e Fundação Champalimaud preparam protocolo de cooperação

União das Mutualidades Portuguesas propõe parceria à Fundação Champalimaud.

Artigos Relacionados