Rosa Valente de Matos, Administradora Hospitalar
“As Mutualidades podem e devem ser um parceiro ativo do SNS na resposta às necessidades em saúde da população, ajustando as respostas.”
Promover a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas ao longo dos vários ciclos de vida – desde que nascem até que morrem – é um processo cada vez mais integrado e indissociável.
Vivemos hoje numa sociedade cada vez mais envelhecida e com mais doenças crónicas. Onde a esperança média de vida à nascença tem vindo a aumentar significativamente, podendo vir a atingir, em 2060, os valores de 85 anos para homens e de 89 anos para as mulheres.
Isto significa que temos, e continuaremos a ter, cada vez menos jovens e cada vez mais idosos.
Por outro lado, o avanço galopante das técnicas e das tecnologias ligadas aos vários ciclos da vida, num mundo cada vez mais global, oferecem novas oportunidades para tratar e cuidar das pessoas, que nos obrigam a repensar a organização de todo o sistema.
Os indivíduos são acompanhados desde o início da sua vida até ao final por um conjunto de instituições que têm cada vez mais que afirmar a sua complementaridade.
Isso implica que algumas dessas instituições assumam, em determinados momentos, uma função mais importante de acordo com os episódios que vão ocorrendo.
Mas, na verdade, a maior parte das vezes não existe complementaridade. Existe sim uma repetição e reforço do que já existe, causando atropelos, incompreensão e gastos desnecessários. Dou sempre o exemplo da família que tinha à porta uma tabuleta onde se podia ler: “visitas das equipas só às quartas-feiras”. Esta família, considerada de risco, tinha a visita da equipa da Segurança Social, do Centro de Saúde, da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e da Santa Casa da Misericórdia local. Todas tinham o mesmo objetivo e como tal a família não percebia porque todos os dias aparecia uma equipa diferente.
Temos exemplos desta entropia em todas as áreas e, por isso, é urgente gerirmos as instituições e os serviços que estas prestam de forma diferente, centrando-os nas necessidades das pessoas, naquilo que elas efetivamente precisam e não naquilo que achamos que elas precisam.
A maioria das instituições centra o seu trabalho na área do tratamento, proporcionando respostas ao problema ou à doença já instalada. É essencial que deixem de considerar apenas a fase do tratamento, passando a apostar principalmente na prevenção e promoção das boas práticas – porque estas são efetivamente as mais importantes para evitar a doença, seja ela do foro físico, mental ou social. A abordagem da prevenção e promoção tem que ser transversal a todos os setores da sociedade de forma a intervir nos vários determinantes de forma sistémica, sistemática e integrada.
As mutualidades, com as suas raízes históricas, que segundo alguns autores remontam à Grécia Antiga, têm como princípios a entreajuda, a solidariedade e a oposição aos poderes estabelecidos. Assim, espelham de forma clara os princípios da Economia Social e a importância que tiveram e têm em estarem ao serviço das pessoas.
O envolvimento da comunidade nas decisões em saúde é fundamental no caminho de sustentabilidade e qualidade que se pretende. A ideia de partilhar o poder e os recursos com os cidadãos é muito desafiante e, sobretudo, necessária e demostrativa de ganhos de eficiência.
Esta mudança de paradigma implica que abandonemos uma visão meramente paternalista do setor e que nos envolvamos num modelo que deixa de estar apenas do lado dos serviços que se podem prestar a cada momento para passar a ser um modelo em que se pensa o que é realmente necessário e quem pode dar a melhor resposta a essa necessidade. É aqui que as mutualidades assumem um papel primordial como motores de um processo que tem que ser cada vez mais participativo e onde o SNS tem que reforçar as suas parcerias.
As Mutualidades podem e devem ser um parceiro ativo do SNS na resposta às necessidades em saúde da população, ajustando as respostas. Esta realidade é transversal a várias respostas do SNS, mas assume especial importância nos programas de promoção da saúde e prevenção da doença, nomeadamente no âmbito da promoção da atividade física e da alimentação saudável, na rede nacional de cuidados continuados integrados ou na recentemente lançada estratégia de implementação da hospitalização domiciliária no SNS, onde o papel das famílias e da comunidade é decisivo para os ganhos em saúde e bem-estar que as pessoas exigem e necessitam.
Este é o caminho do presente e do futuro, onde as Mutualidades podem fazer parte da resposta, colaborando para o SNS ultrapassar os principais desafios num contexto de transformação social e tecnológica. Com esta agregação será possível garantir menos carga de doença, aumento do bem-estar geral do utente num contexto global de recursos escassos e onde as exigências de eficiência e efetividade são cada vez mais elevadas.
O caminho da integração passa por cada instituição do setor social, público ou privado fazer o que lhe compete, complementando-se em torno das necessidades efetivas dos indivíduos ou das comunidades, sem atropelos e rivalidades, numa relação de proximidade, tornando-se, assim, o SNS mais sustentável e participativo.
A Economia Social cria, desta forma, um ecossistema favorável para a sustentabilidade do SNS, porque constitui uma rede de retaguarda, mobilizadora de vontades, formadora e disseminadora de conhecimento e fornecedora de serviços de apoio complementares.
