A janela de oportunidades que se abre às mutualidades no setor da saúde

Mais do que nunca, falar sobre o futuro da saúde é, não só pertinente, como urgente. A pandemia deixou a nu as fragilidades do setor e evidenciou também as mudanças exigidas às entidades da economia social na prestação de cuidados, em especial, às mutualidades.

O Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, e os ex-Secretários de Estado da Saúde Manuel Delgado e Rosa Valente de Matos, que integraram o painel do XIII Congresso Nacional do Mutualismo, dedicado ao “Futuro da Saúde na Economia Social”, apontam o caminho para o posicionamento que as mutualidades devem assumir no contexto da prestação de cuidados de saúde no futuro.

Rosa Valente de Matos chama a atenção para o enve-
lhecimento da população, que se reflete em cada vez mais doenças crónicas e mais permanentes, apesar da esperança média de vida crescente. Aqui, a ex-Secretária de Estado da Saúde vê uma oportunidade para o movimento mutualista e o setor social. “É nesta resposta a uma maior qualidade de vida [para as pessoas] que as mutualidades se devem efetivamente posicionar”, defende.
Contudo, acredita ser necessário ter em conta as espe-
cificidades dos mais velhos. “Os idosos de agora não são os idosos de amanhã”, salientou. “Os nossos idosos são cada vez mais diferenciados, mais qualificados, mais exigentes. O agregado familiar é cada vez menor. São pessoas que já estão muito envolvidas no mundo digital. E temos de procurar respostas para essa população. Não repetir aquilo que fizemos no passado. E, aqui, a União das Mutualidades Portuguesas tem um papel fundamental: estar à frente. Sempre o esteve”, notou.

Esta visão é partilhada pelo Bastonário da Ordem dos Médicos: “Temos pessoas mais velhas e uma carga de doença crónica extraordinariamente elevada, sobretudo a partir dos 65 anos, o que tem implicações muito grandes naquilo que são os cuidados de saúde, naquilo que é o cuidar destas pessoas e em todo o papel que as associações mutualistas podem ter nesta matéria, juntamente com os Estado”.

Miguel Guimarães acredita, porém, que a situação provocada pela covid-19 deixou já a descoberto o relevante papel das mutualidades na saúde. “O seu papel foi essencial [durante a pandemia]”, apontou. “A pandemia também veio reforçar muito daquilo que é a importância do Estado Social, muito daquilo que é a importância de termos um Serviço Nacional de Saúde, muito daquilo que é a importância de termos, de facto, um mutualismo forte, um mutualismo com capacidade de resposta”, acrescentou.

Além disso, o também membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) admite que a crise pandémica veio acentuar a premência de uma aposta na literacia e na prevenção, que “são os pilares de qualquer sistema de saúde que se pretenda eficaz e sustentável”.

O mesmo crê Rosa Valente de Matos: “Somos o país da Europa que menos investe nesta área”. Assim, a autora do livro Telemedicina em Portugal defende a necessidade de formar profissionais, investir na promoção e prevenção, apoiar a autogestão da doença crónica e descentralizar a prestação de cuidados.

Relativamente a este último ponto, Manuel Delgado, ex-Secretário de Estado da Saúde, argumenta que as mutualidades podem vê-lo como uma janela de oportunidades.

“O Estado tem uma vocação centralista. Tudo o que o Estado decide é para ser aplicado em todos os territórios. Não há, a partir do Estado, decisões políticas adaptadas ao meio”, começa por explicar. “As administrações dos hospitais não têm grande poder para provocar uma alteração na remuneração para incentivar a procedimentos mais adequados em cada momento. E, portanto, este exemplo que dou de carreiras muito rígidas, decididas centralmente, mas que não têm, depois, do ponto de vista local, qualquer hipótese de desenvolvimento, cria entropias e acho que, aqui, a UMP tem também um papel relevante que é criar valor em áreas onde o Estado não consegue decidir de acordo com as necessidades locais”, realçou.

Também Rosa Matos o vê da mesma forma, acreditanto que as mutualidades podem passar a uma articulação com as próprias autarquias para a prestação de cuidados.
Foram estas as principais conclusões do painel, no qual se relevou o papel das mutualidades e do setor social na área da saúde, em especial durante a pandemia que atravessamos , mas se mostrou também o caminho que o movimento poderá seguir para chegar além. “Não há dúvida que entre os 67% de despesa pública que temos em Portugal e os 33% de despesa privada, há uma grande margem de atuação para as entidades que não têm fins lucrativos e que se posicionam no território da saúde”, rematou Manuel Delgado.

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